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terça-feira, 7 de maio de 2013

O CASO DA LUA DE MEL


Em uma noite até então normal, no ano de 2003, após o expediente, já em minha residência por volta das 21:00 hs, recebi uma ligação do plantão da DP de Cidreira de onde eu era o responsável pela seção de investigação, informando que havia ocorrido um homicídio no bairro Costa do sol, algo que já estava se tornando normal na região.
Desloquei até o local do fato e me deparei com uma esposa jovem e em choque, que tinha casado naquele dia e que tinha perdido o marido quando estava na lua de mel, na casa de praia dos pais, dele.

Havia um tiro de fora para dentro na janela da casa e outro na porta e a mulher nada tinha visto a não ser o estampido dos disparos e o barulho de seu marido caindo na sala da casa.

A vitima já havia sido levado para o posto 24 h da cidade, na tentativa de salvar sua vida, o que não foi possível e a família da vitima já havia sido informada por vizinhos do ocorrido. Após vasculhar bem o local a única coisa que chamou a atenção era uma senhora negra que estava na volta da casa, muito nervosa, dizendo coisas do tipo, “aqui já não se sabe mais quem é ladrão”.
Perguntei se poderia me prestar algumas informações no dia seguinte, e após a resposta positiva marquei para pegá-la em casa as 08 h da manhã.

Dali, desloquei para o Posto 24hs para ver e fotografar o corpo, quando me deparei com os familiares da vitima, fazendo acusações contra a policia, dizendo que éramos coniventes com os bandidos e que não faríamos nada a respeito da morte do seu filho no dia de sua lua de mel. Tive de baixar a cabeça e ficar quieto por entender a dor daquele pai que estava vendo seu filho morto em uma maca hospitalar, mas muito chateado pelas acusações feitas.

Na manhã do dia seguinte, sem ter dormido muito, pensando no caso, fui buscar aquela senhora que talvez fosse minha única chance de esclarecer o caso e ao chegar à DP ela pediu para ligar para um advogado. Após a ligação onde a pessoa do outro lado lhe autorizou a contar a verdadeira historia, passei a ouvir o que tinha a relatar.

Disse que seu primo cuidava de casas naquela região, e foi contratado pelo pai da vitima para cuidar de sua residência, como guarda, ouvindo barulhos e luz no interior da casa, foi até lá armado e assustado, e já foi logo dando um tiro na janela para que os ladrões saíssem do local e neste momento a vitima que estava na cama correu para a porta e o guarda deu um tiro na porta acertando o peito da vitima que estava atrás e que não viu nem o rosto do seu assassino, caindo na sala da pequena casa já sem vida e a esposa assustada foi para baixo da cama onde permanecia até a chegada de ajuda.

Fiz contato com o advogado, que prometeu apresentar ainda naquele dia o acusado, juntamente com a arma do crime.

Após varias entrevistas para radio, tv e jornal, pelo caso ser inusitado, pois morrer na lua de mel é bem diferente, e então chegou o dia em que os pais da vitima vieram à delegacia prestar depoimento, entraram juntamente com o delegado em minha sala e chorando todos me pediram desculpas pelas acusações, e neste momento não me contive e me pus a chorar juntamente com aquele pai que reconhecia o serviço da policia e estava arrependido pelo dito e muito agradecido pelo resultado de nosso trabalho.

Voltei para minha casa com a sensação do dever cumprido e orgulhoso por ter esta função, que causa tanto orgulho para mim e para minha família.

* Este é um caso verídico acontecido em nossa cidade e atendido por mim, e que me deu o segundo lugar em um concurso literário da acadêmia de policia

2 comentários:

  1. Incrivel, só vc sendo o grande profissional que és, para ter discernimento e equilibrio para enfrentar uma situação assim, continue assim amigo!

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  2. Parabéns!! Pela escrita e pelo fato narrado, abraço...

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